Peça Teatral: Adaptação do livro "A morte e a morte de Quincas Berro D'água" de Jorge Amado


Peça Teatral: Adaptação do livro "A morte e a morte de Quincas Berro D'água" de Jorge Amado

Tô sem o que postar, tô sem ideias pra fazer nada e com uma preguiça surreal, e aproveitando que esse ano é o centenário de Jorge Amado eu vim postar uma peça que eu adaptei para ser apresentado na Gincana que aconteceu no meu colégio, é a adaptação de apenas um capítulo - do X, se não me engano. Espero que possam usá-lo e rir muito com a apresentação como aconteceu com os que assistiram a nossa apresentação - que eu não tenho nem foto T.T.
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Leonardo levanta-se do caixão de querosene, aproxima-se das velas, vê as horas em seu relógio. Acorda Eduardo que dorme de boca aberta na cadeira, que desperta meio incomodado.
Leonardo: Olha, vou pra casa agora. Lá pra umas seis da manhã eu volto e ai você vai ter tempo de ir em casa mudar a roupa. Certo?
Eduardo: (engasga com a saliva e fala com voz sonolenta) Hum... Certo. (Estirou as pernas, recostou a cabeça na cadeira e fechou os olhos. Leonardo saiu).
No canto do quarto, Curió, Pé-de-Vento e Cabo Martim conversavam em voz baixa, e Negro Pastinha dormia.
Curió: Você não acha que já quer demais Cabo Martim? Você já tem a, com todo respeito, (sorri) bem apanhada Carmela, e agora quer a Quitéria do Olho Arregalado? E eu sei bem que o paizinho gostaria que eu fosse seu herdeiro.
Cabo Martim: Não ouvi ele te dizer isso hora nenhuma, e não é certo me riscar da lista de herdeiros só porque eu tenho a Carmela, certo que ela é uma mulher porreta, mas Quitéria... Ah, a Quitéria, tem nem palavra que descreva aquela mulher...
Eduardo olhou o grupo, a discussão parou, cabo Martim sorriu para o comerciante, e os olhos de Eduardo voltados para Negro Pastinha invejando seu sono. Acomodou-se novamente na cadeira, pôs os pés sobre o caixão de querosene, pôs o pescoço em uma posição mais confortável, voltou a fechar os olhos.
Pé-de-Vento não resistiu, retirou a jia do bolso, colocou-a no chão, ficou-a observando, sorrindo.
Eduardo olhou para o morto no caixão, com olhar de desdém, falou sozinho, em tom baixo.
Eduardo: Por que diabos eu estou aqui fazendo sentinela a esse... entojo? Já não basta ter pagado as despesas desnecessárias... Pra um irmão como Quincas já faço bem demais apenas existindo para aguentar suas estripulias. (se ajeitou na cadeira irritado e falou após algum tempo) Um homem que viveu como ele, humilhando tanto sua própria família não merece um enterro de rei, ah, não... E eu que trabalho de domingo a domingo não recebo tanto paparico quanto essa praga, meu Deus, por que o senhor me deu uma cruz ao invés de um irmão?
Levantou-se, movimentou pernas e braços, abriu a boca num bocejo. Pé-de-Vento escondia na mão a pequena jiaverde. Curió pensava em Quitéria do Olho Arregalado. Mulher e tanto... Eduardo parou ante eles:
Eduardo: Me digam uma coisa...
Cabo Martim: Às suas ordens, meu comandante.
Eduardo: Então vocês vão ficar a noite toda, sim?
Cabo Martim: Com ele? Sim senhor. A gente era amigo.
Eduardo: Então vou em casa, descansar um pouco  (meteu a mão no bolso, retirou uma nota. Os olhos do Cabo, de Curió e Pé-de-Vento acompanhavam seus gestos.)  Tá aí para vocês comprarem uns sanduíches. Mas não deixem ele sozinho. Nem um minuto, hein!
Pé-de-Vento: Pode ir descansado, a gente faz companhia a ele, e com muito gosto. (Eduardo sorriu, virou as costas e saiu)
Abriram uma garrafa, antes de começar a beber, Curió e Pé-de-Vento acenderam cigarros; cabo Martim, um daqueles charutos de cinquenta centavos, passou a fumaça sob o nariz do negro, ele não acordou. Mas apenas destamparam a garrafa e o negro abriu os olhos.
Negro Pastinha: (abriu os olhos devagar, despertando do sono) Passe pra cá essa garrafa (e tomou da mão de seu amigo, bebendo um gole e devolvendo-a a sua mão)
E ficaram ali a beber.
Curió: Essa família de Quincas tão metida e tão mesquinha e avarenta, isso nem combina. E ainda fizeram o serviço todo pela metade, vê se pode uma coisa dessas...
Pé-de-Vento: Num é? Onde estão as cadeiras pras visitas? E as bebidas e comidas? Nem velório de pobre é tão mal feito assim.
Cabo Martim: Eu já fui muito sentinela de defunto, e nem na casa das pessoas mais pobres da localidade deixavam se servir uma xícara de café que fosse, e um gole de cachaça... E ai uma família cheia de posses dessa, não põe nem cadeira pras visitas. Uma vergonha.
Negro Pastinha: Não sei do que adianta andar por ai arrotando grandeza e deixar o pobre Quincas numa humilhação dessas, eu teria vergonha.
Curió: Pois vamos resolver isso, eu e Pé-de-Vento vamos ver se achamos algo pra arrumar esse velório, umas cadeiras, comida... certo Pé-de-vento?
Pé-de-vento: Uhum... Vamos lá.
Curió: Pois vamos, e vocês cuidem bem do Quincas (saem apressados)
Cabo Martim deu alguns passos e sentou-se na cadeira , Negro Pastinha ocupara o caixão de querosene
Cabo Martim: Verdade é que em relação ao cadáver eles se comportaram bem, roupa nova, sapatos novos, chique que só, nem parece o Quincas (sorri). Só esqueceram as flores, onde já se viu defunto sem flores?
Negro Pastinha: Verdade. Está um senhor. Um defunto porreta! (Quincas sorriu com o elogio, o negro retribuiu-lhe o sorriso) Paizinho... (disse comovido e cutucou-lhe as costelas com o dedo)
Curió e Pé-de-Vento voltaram com caixões, um pedaço de salame e algumas garrafas cheias. Fizeram um semicírculo em torno ao morto.
Curió: (disse comovido) Nosso paizinho...Vamos rezar o Padre-Nosso pra ele?
Cabo Martim: Olha, eu mesmo não gosto muito de rezas...
Negro Pastinha: Já eu, minha cultura religiosa não vai muito longe, só alguns toques de Oxum e Oxalá que aprendi por ai...
Pé-de-vento: Eu não rezo há uns anos, mas a gente tenta pelo paizinho... Sim?
Cabo Martim: Certo, pela Quincas, mas o Curió puxa a reza porque ele é mais entendido desse assunto que a gente.
Tentaram, Curió puxando a reza, ajoelhado.
Curió: 
Pai Nosso que estais no céu,
O pão nosso de cada dia nos dai hoje. 
Cabo Martim: E a pinga de amanhã também
Curió:Perdoai as nossas dívidas
Pé-de-Vento: E os donos dos botecos perdoai as nossas também
Curió: Amém, amém, amém.
(Levantando a cabeça e o corpo disse irritado) Cambada de burros... Erraram tudo.
Cabo: É falta de treino...  Mas já foi alguma coisa, o resto o padre faz bem feito amanhã.
Negro Pastinha: Não sei não, parece que a reza não deu certo, parece que ele piorou.
Curió: Também, com a reza de vocês... tão mal feita que a pessoa implora pra ficar surda pra não ser torturada.
Negro Pastinha: (olhou para Curió com olhar de reprovação e voltou-se a Pé-de-vento) Cadê o sapo? Dá pra ele...
Pé-de-vento: Sapo, não. Jia. Mas pra que lhe serve agora?
Negro Pastinha:  Sei lá, talvez ele goste.
Pé-de-Vento tomou delicadamente a jia, colocou-a nas mãos cruzadas de Quincas.
Pé-de-vento: Aqui Quincas, pra você, a jia mais bonita que já encontrei.
Cabo Martim e Curió retomaram a discussão em voz baixa.
Curió: Mas homem, deixe de ser tão egoísta, deixe Quitéria como herança pra mim. Carmela já não lhe faz um bom serviço?
Cabo Martim: Faz, e como faz meu amigo... Mas não vejo por que não ter Quitéria pra mim, aquela deusa em forma humana... Nem penso meu amigo, nem penso , que só de pensar me sobe um fogo...
Curió: (exaltado) Sei bem o que lhe sobe junto com esse fogo... E tu já tens Carmela, se dê por satisfeito, eu que estou sozinho careço bem mais de uma mulher que você e...
Negro Pastinha:  (irritado) Vocês não têm vergonha de disputar a mulher dele na vista dele? Ele ainda quente e vocês que nem urubu em carniça?
Pé-de-vento: Ele é que pode decidir, meu amigo... E eu que lhe dei a jia mais bonita que já encontrei, bem mereço ganhar Quitéria.
Quincas: (irritado) Hum!
Negro Pastinha:  (zangado) Tá vendo? Ele não está gostando dessa conversa, parem com isso
Cabo Martim: (levantando a garrafa que estava em sua mão) Vamos dar um gole a ele também... Talvez ele se acalme
Abriram-lhe a boca, derramaram a cachaça. Espalhou-se um pouco pela gola do paletó e o peito da camisa.
Curió: Também nunca vi ninguém beber deitado... (ironia) Gênios
Pé-de-vento: É melhor sentar ele. Assim pode ver a gente direito.
Sentaram Quincas no caixão, a cabeça movia-se para um e outro lado. Com o gole de cachaça ampliara-se seu sorriso.
Cabo Martim: É um bom paletó... Besteira botar roupa nova em defunto, não? Morreu, acabou, vai pra baixo da terra. Roupa nova pra verme comer, e tanta gente por aí precisando...
Deram mais um gole a Quincas.
Quincas: (balançou a cabeça lhe dando razão) Hum...
Negro Pastinha: Ele está é estragando a roupa.
Curió: É melhor tirar o paletó pra não esculhambar.
Quincas pareceu aliviado quando lhe retiraram o paletó negro. Mas continuou cuspindo a cachaça
Pé-de-vento: Continua cuspindo, ó ai
Cabo Martim: Vamos tirar a camisa dele também pra não estragar. (e tiraram)
Curió: Ó que sapato bonito, dão direitinho nos meus pés.
Negro Pastinha tirou seus sapatos e  recolheu no canto do quarto as velhas roupas do amigo, vestiram-no.
Pé-de-vento: Agora, sim, é o velho Quincas.
Curió: (no ouvido de Quincas) Paizinho, e Quitéria? Agora que morreu nem lhe serve mais, você vai me dar ela como herança, não? (Quincas cuspiu-lhe a cachaça no olho)
Cabo Martim: Ele se danou.
Negro Pastinha: Eu não disse? Eu avisei, parem com esse assunto que ele se irrita, onde já se viu irritar morto.
Curió: Paro sim, sem pensar duas vezes (e limpou o olho)
Pé-de-vento vestiu as calças novas, cabo Martim vestiu com gosto o paletó.  A camisa Negro Pastinha colocou sobre os ombros, trocaria num botequim conhecido, por uma garrafa de cachaça.
Cabo Martim:
Não é por nada não, mas essa sua família é muito da econômica, não acha? Sabe o que eu acho? Que aquele seu genro roubou a cueca.
Quincas: São é uns unhas-de-fome .
Curió:  Já que você mesmo diz, eu não discordo. A gente não queria ofender eles, afinal são seus parentes, mas que são pães-duros isso são, que avareza, é até pecado (faz o sinal da cruz)... Bebida por conta das visitas, onde já se viu sentinela desse jeito?
Negro Pastinha: Mas nem uma flor, parentes dessa espécie eu prefiro não ter. Pra que?
Quincas: (disse com voz forte) Os homens, uns bestalhões. As mulheres, umas jararacas
Negro Pastinha: Olha, paizinho, a gorducha até que vale uns trancos... (alegre) Tem uma padaria que dá gosto.
Quincas: Um saco de peidos. (fala com voz alta e levantando ao dedo indicador) E digo mais, é um saco de peidos
Negro Pastinha: Fale assim não, paizinho. Ela tá um tiquinho amassada sim, mas é dá idade também, não é de se jogar fora. Já vi coisas piores
Quincas: Negro burro. Nem sabe o que é mulher bonita.
Pé-de-vento: Bonita é Quitéria, hein, velhinho? O que é que ela vai fazer agora, sem o senhor? Eu até...
Negro Pastinha: Cala a boca, desgraçado! Não vê que ele se zanga?
Quincas inclina sua cabeça para o lado de Cabo Martim e bate na garrafa com a cabeça, quase a derrubando
Negro Pastinha: (exigiu) Dá a cachaça do paizinho...
Cabo Martim: Ele estava esperdiçando
Negro Pastinha:  Ele bebe como quiser. É um direito dele. Demência
Cabo Martim enfiou a garrafa pela boca aberta de Quincas:
Cabo Martim: Calma, companheiro. Não tava querendo lhe lesar. Tá aí, beba a sua vontade. A festa é mesmo sua...
Curió: Boa pinga!
Quincas: Vagabunda!
Curió: Também pelo preço, você queria o que?
A jia saltara para o peito de Quincas. Ele a admirava, não tardou a guardá-la no bolso do velho paletó sebento. Cabo Martim: (olhou para os outros) Ele adora ouvir uma cantiga... (sorriu e começou a cantar)
 
Música: Eu bebo sim

E os outros também começaram a cantar, bebiam e cantavam, Quincas não perdia nem um gole, nem um som, gostava de cantigas, sorria com isso. Quando já estavam fartos de tanto cantar, Curió perguntou:
Curió: Eita, não era hoje de noite a moqueca de Mestre Manuel?
Pé-de-Vento: (com água na boca) Hoje mesmo. Moqueca de arraiá...
Cabo Martim: Ninguém faz moqueca igual a Maria Clara
Quincas estalou a língua. Negro Pastinha riu.
Negro Pastinha: Tá doidinho pela moqueca ó.
Cabo Martim: E por que a gente não vai? Mestre Manuel é até capaz de ficar ofendido. Não é bom a gente faltar, é amigo nosso, temos até obrigação de ir.
Entreolharam-se. Curió disse preocupado.
Curió: A gente prometeu não deixar ele sozinho.
Pé-de-vento: Sozinho? Quem disse que ele vai ficar sozinho? Ele vai com a gente.
Negro Pastinha: Tou com fome (sua barriga roncava)
Consultaram Quincas
Cabo Martim: Tu quer ir?
Quincas: Tou por acaso aleijado, pra ficar aqui?
Negro Pastinha: Esse sim é meu paizinho.
Um trago para esvaziar a garrafa. Puseram Quincas de pé. Negro Pastinha comentou
Negro Pastinha: Tá tão bêbedo que não se aguenta. Com a idade tá perdendo a força pra cachaça, quem diria? Vambora, paizinho.
Curió e Pé-de-Vento saíram na frente. Quincas, satisfeito da vida, num passo de dança ia entre Negro Pastinha e Cabo Martim de braço dado.


Cenário:
É um cenário bem pobre.
01.Caixão
02.Caixotes
01.Suporte para  caixão
03. Garrafas de cachaça
01.Charuto
01.Cadeira
Velas e alimentos

O figurino pode ser criado pelas pessoas que farão o personagem, ficaria mais interessante (:

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