Falta do desespero

    
      Hoje não é nenhuma data especial, não há nada que possa me lembrar você mais do que o usual. Nenhum lembrete na porta da minha geladeira marca essa hora como o fim de qualquer ciclo estranho que nós tenhamos começado do avesso. Só que, de repente, me bateu uma saudade. Assim, do nada, eu senti uma puta falta de você. E das milhares de horas que a gente costumava conversar durante o dia. Eu sei que você está bem aqui, bem ao meu lado, mas não consigo deixar de te sentir longe.

Extremamente longe de mim, na verdade. Você riria e diria que é só mais uma besteira minha, mais um dos meus mil defeitos de poeta. Sempre dissestes a mesma coisa, sabia? Sempre me repetias que eu tenho a alma intensa demais, longa demais, demasiadamente perturbada, também. Sempre invento coisas onde não tem, sempre adiciono vírgulas e pontos finais. E sempre me dissestes, também, que eu tenho a terrível mania de não perdoar. Nem agradecer. Só que você esqueceu de me contar se a culpa disso tudo é minha.
Veja só onde estamos, nesse momento. Tão separados quanto se estivéssemos do outro lado do mundo. Mas não - você está bem aqui, ao alcance de um toque no celular. Um táxi poderia me levar até você, uma carta seria facilmente entregue, revelando tudo o que eu sinto. Porque não, afinal? Eu sinto que não temos mais nada a perder, de qualquer jeito. É só uma ferida a mais, só uma cicatriz que irá me lembrar mais tarde. O que será apenas mais uma, em meio a tantas? Como você mesmo disse, é só mais uma ligação perdida. Só mais uma carta queimada, uma lágrima caída. Tem razão, é só mais um para sempre desperdiçado. 
Leia com atenção, por favor. Se eu escrevo, não é só por escrever. É uma falha na minha alma, um buraco no meu interior. O sangue desse buraco se transforma em palavras, lembre-se. Então, tudo isso é você. Tudo isso são palavras para você. Mais um dos meus defeitos de poeta que tanto te irritam. Falar por entrelinhas, nunca dizer o que eu realmente quero. Eu sou feita de controvérsias, você sempre dizia. E posso ser mesmo, posso ser o preto e o branco, o bem e o mau. Posso ser a poeta ceticista e bem resolvida, ou a romantista louca que grita na sua porta durante a madrugada. Se somos feitos de decisões, eu havia decidido ser feliz. E então, chegou você. E acabou com todas as chances que eu tinha de sorrir. 
Por fim, eu só queria que você soubesse que o telefone acaba de tocar, e o seu nome apareceu na tela. Mesmo que eu tenha atendido rápido demais, meu coração já havia dado quinhentos pulos e pulsações e bombardeado sangue por todo o meu corpo dando calor às minhas extremidades. Em um mísero segundo, você fez isso comigo. Só que eu já me tornei mulher, antes que seus olhos pudessem me ver. É, eu me transformei para poder ser a única mulher para ti. E nem isso você foi capaz de perceber. Mesmo que eu tenha jogado meus medos no lixo, e guardado toda a minha dor, você continuou cego. Mas eu atendi ao telefone, enquanto as lágrimas escorriam pelos meus olhos. Éramos tão próximos, e agora estamos tão indiferentes um ao outro. Como vai o dia? E a prova de hoje? Ah, tá muito lotado aí? Perguntas tão vagas para quem tem tanto a dizer, não acha? Me escuta, por favor. Tem um grito preso na minha garganta, um murmúrio prestes a sair, e você é incapaz de ouvir. Tem uma lágrima pronta para cair, uma súplica com vontade de se soltar. Mas essa tua serenidade toda não me deixa ser cruel contigo, não deixa com que eu te diga todas as maldades que eu quero te dizer. Por que você acabou comigo. Você me transformou em um nada enorme, e ainda assim, eu sinto a sua falta com todo esse nada gigantesco que me restou. Então, pela última vez, eu vou enfiar o meu orgulho em um pote e guardá-lo na prateleira de cima, onde eu não alcançava quando criança. Eu vou esquecer de mim, para tentar pela última vez.
Então, volta pra casa? Ana F 

Retirado do blog Sonhos Subentendidos  

2 comentários:

  1. Eis mais uma página do amor: esquecer de si mesmo para dar lugar ao outro.
    Identifiquei-me.
    Beijos.

    http://sabrinanunees.blogspot.com/

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  2. O amor é uma coisa complicada demais ^^

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